Carmen Silva
Educadora do SOS Corpo (Recife - PE), integra o Fórum de Mulheres de Pernambuco e a Articulação de Mulheres Brasileiras

Multidões tomaram as ruas das principais cidades brasileiras nos meses de junho e julho deste ano. Tudo começou em São Paulo, com a convocação do Movimento Passe Livre contra o aumento das passagens de transporte coletivo e se espalhou pelo Brasil como um rastilho de pólvora ou um viral na rede. Inúmeras convocações, com e sem movimentos organizados, fizeram o povo brasileiro ganhar as ruas e expressar um sem número de reivindicações. Mas quem eram essas pessoas? Por que, de repente, foram às ruas? Em que resultou tudo isso? Que desafios ficaram para nós, do movimento feminista, a partir desta experiência? Eu não tenho respostas. Muit@s estão tentando analisar este fenômeno e aqui vou apenas levantar mais uma opinião.

Uma frase pintada a pinceladas de tinta em um grande círculo de papelão prendeu meu olhar na manifestação gigante e multifacetada do dia 20 de junho, que percorreu as ruas do Recife: Insatisfação coletiva do coletivo Brasil. Pela diversidade de cartazes feito à mão e a miríade de proposições que foram capazes de trazer à tona, eu não poderia negar o grau de insatisfação coletiva que as passeatas mostraram. Mas seria o Brasil um “coletivo” que as expressava? Certamente não. Por mais que a mídia tenha tentado classificar o fenômeno e classificar os manifestantes contrapondo os “pacíficos, ordeiros e legítimos” - que seriam majoritários - aos “vândalos, inconsequentes e ilegítimos” - que seriam minoritários -, nem assim conseguiu, suficientemente, fixar nos corações e mentes de tod@s a mensagem fortemente ideológica ”o gigante acordou”. Muita gente sabe que nem todo mundo estava dormindo.

Não. Não somos um coletivo, no sentido em que isso nos dê uma unidade de propósito. E também não somos um povo cordial, que reage sempre dentro da ordem. Somos, o Brasil, muito mais que isso. As manifestações indicaram distintas insatisfações porque delas participaram setores sociais com diferentes necessidades, interesses e visões de mundo. Alguns, integrantes de movimentos sociais ou mobilizáveis a partir de suas causas, expressavam distintas reivindicações ligadas à políticas públicas de transporte, educação e saúde. Exigiam reconhecimentos para modos de vida próprios. Enfrentavam as tentativas ultraconservadoras de novas legislações impeditivas da liberdade sexual e autonomia reprodutiva, sintetizadas na rejeição ao deputado federal Marcos Feliciano. Denunciavam os gastos públicos com as obras em preparação dos grandes eventos esportivos, frente ao caos presente na vida urbana.

Outros manifestantes foram mobilizados a partir da insatisfação difusa a certas prioridades do governo federal relacionadas ao enfrentamento da pobreza, além de uma visão moral contra a corrupção - porém vista de forma ahistórica e utilizada ideologicamente contra os sujeitos políticos da esquerda em geral e não especificamente contra os segmentos corrompidos e os corruptores na cena política atual. Outros, ainda, aderiram ao apelo midiático para a festa cívica (sic) aproveitada para tentar construir na opinião pública posicionamentos contrários ao governo Dilma.

Apesar de tudo, foi muito bom ver, nas ruas, reivindicações que estavam sendo arduamente trabalhadas pelos movimentos sociais para ganhar adesão na sociedade há alguns anos, como a repulsa ao projeto do Estatuto do Nascituro e a crítica às obras da Copa do Mundo. Foi muito bom vê-las ganharem força popular nas mãos de muita gente que não está cotidianamente na organização dos movimentos a elas correspondentes. Apesar de tudo, temos certeza de que sopram novos ventos na conjuntura. Embora as respostas do governo federal aos protestos e mobilizações tenha sido pífia, e as do Congresso Nacional sejam de quase total antagonismo com as vozes críticas das ruas, as coisas na cena política brasileira não são mais as mesmas.

Muitos protestos locais ocorreram e seguem ocorrendo em torno das mais variadas causas: frentes de luta por transporte público saíram fortalecidas e conseguiram negociações com os governos estaduais; no Congresso, a cura gay foi engavetada; o movimento sindical paralisou os locais de trabalho contra a PEC da terceirização; o governo federal entrou com o programa Mais Médicos que dá indicativos de bons resultados na saúde pública dos municípios mais abandonados e também no enfrentamento ideológico ao racismo e elitismo sem limites, demonstrado por amplos setores da categoria médica neste embate.

De tudo, ficaram para mim duas ideias geradoras. Protestos, manifestações e movimentos sociais voltaram a ter legitimidade pública na sociedade brasileira e a participação política nas ruas coloca em xeque a forma tradicional de fazer política. Me refiro à política de gabinetes calcada em fortes coalizões, que exclui os interesses populares e de enfrentamento ao racismo e ao sexismo e, também, aos mecanismos de democracia participativa que se retroalimentam sem dialogar com as demandas dos movimentos sociais na sua área de atuação. Fica além disso o desafio de ganharmos cada vez mais apoio social para uma reforma do sistema político ampla, democrática e participativa, capaz de gerar condições para a paridade na política.

   
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