Guacira César de Oliveira e Nina Madsen
Sociólogas e integrantes do Colegiado de Gestão do CFEMEA

Não é recente nossa denúncia sobre o esfacelamento do sistema político brasileiro. Não é de agora a nossa demanda por uma reforma política profunda, capaz de romper com velhas e assentadas práticas políticas do país. Não são novidades nossos repetidos e insistentes alertas, sobre o preocupante crescimento e organização das forças conservadoras no Congresso Nacional. Há tempos vínhamos nos empenhando na resistência aos ataques fundamentalistas e nas tentativas de avanços em direção à reforma política, construída pela Plataforma dos Movimentos Sociais. Mas os esforços, ainda que intensos, pareciam ecoar cada vez menos.

Nossa avaliação do cenário político institucional brasileiro, até maio de 2013, era bastante pessimista. Considerava inevitável o avanço da onda conservadora que tomou conta do Legislativo e do Executivo federais e se preocupava com o transbordamento desse fenômeno para os demais níveis da federação. Entendemos que, institucionalmente, poucas seriam, dali pra frente, nossas possibilidades de produzir mudanças capazes realmente de alterar o estado das coisas. E nos convencemos, definitivamente, de que a transformação somente poderia chegar quando a sociedade se inquietasse e se mobilizasse para produzi-la.

As Jornadas de Junho, portanto, foram um misto de alívio, surpresa e euforia. Elas anteciparam o que vislumbrávamos como inevitável, mas que nos colocava frente a um tremendo desafio - o de voltar a dialogar com a sociedade. Nossa luta dos últimos 25 anos por direitos e políticas para as mulheres tinha que se reposicionar para ser capaz de entabular esse diálogo. As jornadas de junho forçaram esse movimento e nos jogaram nesse novo lugar.

O que mudou de lá pra cá? Primeiro, fortaleceu-se a certeza da cisão entre a sociedade brasileira e as instituições de nosso Estado. E não, não é apenas um problema com os governos o que está colocado. As multidões que foram às ruas em junho e que continuam a ir às ruas desde então, estão ecoando nossa insatisfação com a forma como nosso Estado está estruturado: em legislações ora ultrapassadas, ora não implementadas; com a sistemática violação de nossos direitos humanos, econômicos, políticos, culturais, sociais e ambientais; com um sistema político patrimonialista, patriarcal e racista, incapaz de garantir a representatividade democrática que deveria.

Mudou também a leitura sobre o grau de “satisfação” de nossa população com o atual estado de coisas. Noss@s polític@s mexeram-se nas cadeiras. Ficaram tens@s, preocupad@s, apavorad@s. Voltaram 30 anos na história e recorreram à repressão policial que jurou-se nunca mais repetir. O poder, até ali tão sólido, parece que se desmanchou no ar e nossos ilustres poderosos ficaram com medo.

E rapidamente responderam. Com mais repressão policial de um lado, e com uma agenda positiva e um conjunto de pactos nacionais de outro. A tarifa zero para o transporte público voltou às agendas governamentais, como se dela dependesse a contenção do terremoto.

Mudou o cenário também para os movimentos sociais. Nós, que há tanto tempo estamos nas ruas, nós que não dormíamos, mas que também fomos despertad@s pelas multidões. Nós também fomos surpreendid@s por elas. E nos cabe agora nos juntar a essas multidões, formar parte dessa pluralidade e dialogar para tentar construir o que queremos. Voltar às ruas e aos territórios, recuperar a concretude dos direitos, das lutas e dos sentidos políticos das transformações que queremos alcançar. Encontrar ativistas, debater e buscar nexos entre tantas e diferentes lutas.

As Jornadas de Junho trouxeram para as ruas formas vivas de fazer política. Uma nova estética, polifônica, sem palanque, nem carro de som. Mostraram a diversidade das lutas e a quantidade de gente que está interpelando o Estado e a sociedade, de formas muito diferentes das tradicionais: Cadê o Amarildo? Meu corpo, minhas regras! O corpo é meu, a cidade é nossa! Da Copa eu abro mão, quero dinheiro pra saúde e educação! Tarifa Zero! Não são só R$ 0,20! Abaixo o Estatuto do Nascituro! Não nos representam! Fora Feliciano! Fora Renan! Reforma Política já! Sem violência! Abaixo a corrupção!

A infinitude de frases, as palavras de desordem, as ações violentas e o mar de gente pelas ruas das cidades sinalizaram, indubitavelmente, a profundidade da crise da representação política, dos partidos, do sistema político, incapazes de vocalizar as demandas e processar os conflitos que @s manifestantes vêm apontando. A manipulação das grandes emissoras de rádio e televisão foi posta a nu e elas próprias viraram alvo dos protestos, ao mesmo tempo em que as pessoas abriam outros caminhos para fazer fluir a informação que cada um produzia e se informar sobre como evoluía a onda de manifestações.

Abriu-se um leque enorme de protestos que, agora, têm o enorme desafio político de convergir e gerar um novo campo de atração, uma nova vibração, um novo ciclo democratizante. Será viável mobilizar forças libertárias, emancipatórias, solidárias, às vésperas de mais um ano eleitoral e da Copa do Mundo de Futebol? Quem sabe...

Neste momento queremos valorizar a resistência, a organização e a mobilização social de muitos e diversos coletivos e movimentos contra a ofensiva religiosa e fundamentalista anti-direitos. Contra a violência policial, a privatização e mercantilização da vida nas cidades, da natureza, dos bens comuns da humanidade. Queremos jogar luzes na disposição de muita gente, sem trajetória anterior de participação, e destacar, em especial, a renovação do ativismo feminista, antirracista, contra os fundamentalismos religiosos e anticapitalista evidente nas manifestações.

Mas não podemos subestimar a capacidade do sistema político brasileiro de absorver e esterilizar novos sujeitos e forças políticas. Riscos há, sem dúvida. O vácuo institucional escancarado nas manifestações não será imediatamente preenchido por forças progressistas e transformadoras. As forças conservadoras, fundamentalistas e reacionárias estão aí, disputando todo e qualquer espaço. As Jornadas de Junho mudaram o cenário político no Brasil e nossa expectativa é de que possam mudar, também, nosso jeito de enfrentá-lo.

   
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