Mulheres do Brasil. Trabalhadoras do campo, da floresta e da cidade. Sindicalistas. Feministas. Todas estiveram em Brasília em marcha nas ruas da capital em luta por justiça, autonomia, igualdade e liberdade. A coordenadora da Marcha das Margaridas, Carmen Foro explica ao Jornal Fêmea o sentido, a história, as conquistas e perspectivas da Marcha ao longo destes anos.

Fêmea - O Lema das Marcha das Margaridas 2011 é “Desenvolvimento Sustentável, com Justiça, Autonomia, Igualdade e Liberdade”, quais reflexões geraram o lema desse ano?

Carmen Foro - A Marcha das Margaridas têm uma trajetória política de mais de dez anos. E essa trajetória política resultou em uma reflexão desafiadora do modelo de desenvolvimento, pensando em que medida esse modelo serve para a vida das mulheres. No atual contexto de evolução de nossa pauta, estamos desenvolvendo um debate feminista. E a escolha desse lema foi exatamente para dialogar o modelo de desenvolvimento e temas que são estruturantes de uma proposta e que sem eles vamos demorar muito mais para que as mulheres saem da condição de pobreza, de desigualdade, de pouco acesso às políticas e obviamente de terem um caminho que seja de superação da desigualdades. Então, quando falamos em justiça, temos uma visão bastante abrangente de justiça social, mas estamos olhando também para os outros momentos de nossos temas quando estamos tratando da violência, e outras questões de injustiça que acontecem na vida das mulheres. Quando estamos falando de autonomia estamos trazendo para o centro do debate do desenvolvimento a importância de fortalecer a autonomia das mulheres, que parece ser uma questão que é de responsabilidade do debate das mulheres, e nós queremos que isso esteja centrado no debate articulado com a ideia de podermos avançar. Quando falamos de liberdade, as manifestações, os problemas que vivenciamos, desde os espaços que atuamos politicamente nas nossas organizações até termos que conviver com o reflexo dessa sociedade que discrimina, que comete violência, que nos cerceia da nossa liberdade política. Queremos ser livres, isso para nós é fundamental.

Fêmea - A Marcha é considerada a maior e mais efetiva ação das mulheres no Brasil. Considerando o novo cenário político, com uma presidenta governando o Brasil, quais são os desafios políticos da Marcha das Margaridas 2011?

Carmen Foro - Primeiro, acredito que o trabalho feito como fazemos para mobilizar a Marcha é extremamente importante pela seguinte razão: estamos construindo a Marcha sempre de uma até a outra. Num processo de diálogo quando se trata das políticas públicas, de mobilização de base local. O segredo de conseguirmos mobilizar tantas mulheres é porque ao longo desse período fazer a reflexão política a partir da realidade vivida, lá no meio rural, se configura na garantia da legitimidade da nossa pauta, na garantia do protagonismo dessas mulheres. Entendemos que 2011 é um ano marcante politicamente. É o ano da primeira mulher Presidenta da República, mas não achamos que o fato de termos uma presidenta mulher a nossa vida estará resolvida, mas entendemos que temos uma oportunidade política de qualificar ainda mais o debate. Trazer para agenda política nacional questões que ficaram guardadas na história do Brasil por muito tempo. Eu não quero dizer com isso que ao longo de nossa caminhada não fizemos importantes processos de conquistas, mas acho que temos possibilidades de avançar e demonstrar nossa força política. O objetivo de mobilizar 100 mil mulheres em Brasília foi politicamente um marco para poder tentar colocar na agenda do Brasil as questões de todas as mulheres.

Fêmea - Que pontos você gostaria de destacar sobre a Marcha deste ano?

Carmen Foro - Não tenho como fazer escolhas. Essa pauta não é emergencial e sim estruturante. O da biodiversidade, e como fazemos o processo de democratização dos recursos ambientais. Terra, água e agroecologia são elementos centrais para pensar qualquer modelo de desenvolvimento, principalmente do campo. A democratização e a participação da sociedade na gestão dos recursos hídricos. Temos o tema da segurança e soberania alimentar. As mulheres da agricultura familiar são estratégicas para o país. Elas têm o papel fundamental na produção de alimentos para agricultura familiar (produzimos 70% do alimento do nosso país). Não é a monocultura da soja que produz para exportar que garante a segurança alimentar do nosso país. Portanto, além de investir na produção de alimentos, investir também em alimentos saudáveis. O Brasil é campeão no uso de agrotóxicos. Inclusive aqui se usa alguns que estão proibidos em outros países.

Fêmea - A temática DSDR perpetua na Marcha desde 2003. Como a Marcha vem pensando e evoluindo esse tema até os dias de hoje?

Carmen Foro - Temos amadurecido esse debate entre nós, trabalhadoras rurais, pois viemos de um lugar bastante conservador, o campo, e de acesso de informação precário. Portanto esse não é um debate tão fácil entre nós, mas esse assunto trata da vida de muitas mulheres que morrem no campo, que não estão nas estatísticas porque realizaram aborto. Entendemos que tem que ter comprometimento da saúde pública, tratamento humanizado à essas mulheres e tem que ter também direito de decidir pelo nosso corpo, pela nossa própria vida.

Fêmea - Esse ano a Marcha traz alguns novos eixos temáticos. Qual a razão para a inserção dessas temáticas?

Carmen Foro - A capacidade de reflexão política e de análise do momento em que estamos vivendo. De 2003 para cá se abriu uma janela política muito importante, e tivemos conquistas importantes, portanto essas portas abertas nos dá possibilidades de dialogar e amadurecer politicamente, fazer uma reflexão que eu considero desafiadora que é o que essas mulheres querem? A reflexão que nós queremos trazer para a agenda do Brasil é: qual o modelo de desenvolvimento? É o vigente? Com monocultura, distribuindo veneno aéreo em determinados estados brasileiros? É esse o modelo que interessa para as mulheres da cidade, do campo? Nós temos no Brasil capacidade política de produção em grupos de mulheres que não estão visibilizadas, nem nos cálculos das estatísticas oficiais, e não são reconhecidas nas políticas públicas. O que significa a produção das mulheres para a segurança e soberania alimentar? Portanto, é preciso fortalecer esse protagonismo, se não fortalecer vamos ficar à margem. Vamos ter um país que cresce economicamente, vira a quinta maior potência do mundo, e as mulheres continuam invisíveis na sua produção, desrespeitadas nos seus direitos, ausentes das políticas públicas e distantes da agenda central do governo. O que queremos é apontar caminhos para o nosso país. Intervir na política nacional, seja ela econômica, social, ambiental do nosso país.

   
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