O Dia Internacional da Mulher (8 de março) é, para a sociedade em geral, a ocasião de lembrar a importância delas no cotidiano, suas conquistas de espaço no mercado de trabalho e em outros campos da vida moderna. Para o movimento feminista, trata-se de um momento propício para a reflexão sobre os desafios a serem enfrentados no caminho da igualdade de gênero. Avanços já foram muitos, mas há vários outros a serem alcançados. Em 2008, a Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) elegeu a legalização do aborto como tema central nos debates para a data. Afinal, esse é um problema que impacta a vida das brasileiras em questões de saúde, de violência, de justiça social. Não é apenas isso, porém, que há pela frente. Trabalho, violência, aumento da representatividade política, além do amadurecimento do próprio movimento social, estão entre os pontos da agenda feminista neste ano. Com o intuito de fazer um retrato da mobilização nos próximos meses, o Fêmea ouviu mulheres que se destacam na luta pela ampliação de direitos. Veja, a seguir, o que elas pensam:

Para as feministas tanto na América Latina como no mundo, o principal desafio hoje é enfrentar as concepções fundamentalistas que fazem da liberdade de decidir das mulheres e do controle de seus corpos o eixo central de suas campanhas. Não é a única agenda que nos convoca, mas, nas outras, não estamos sozinhas. A sexualidade e o aborto fazem parte da agenda conservadora que congrega tanto a direita política como as expressões religiosas fundamentalistas. Em torno dessa agenda, estão em jogo os direitos de cidadania conquistados pelas mulheres, mas também se coloca em xeque a pluralidade, a relação entre direitos individuais e coletivos e a liberdade como horizonte ético da felicidade.
Lilián Celiberti, coordenadora da Articulación Feminista Marcosur

Nosso maior desafio em 2008 será fazer o enfrentamento do traço conservador, patriarcal e machista de nossa cultura política - um bloqueio à liberdade sexual das mulheres e ao avanço da luta feminista pelo direito ao aborto legal em 2008. Isso se expressa pelo conservadorismo obscurantista que está com hegemonia na Campanha da Fraternidade da Igreja Católica este ano. Um certo falso moralismo pequeno-burguês e puritano deverá emergir também no contexto das eleições municipais no segundo semestre. As mulheres feministas este ano precisarão mobilizar toda radicalidade subversiva contra a família, o Estado e a cultura patriarcais.
Silvia Camurça, secretária-executiva da Articulação de Mulheres Brasileiras

Creio que enfrentaremos alguns desafios principais: manter a pauta feminista na agenda pública, deixando claro para a sociedade que o aborto é uma das questões colocadas, mas não a única. Lembro que é ano eleitoral, o que significa uma espécie de "degradação" do debate social. Não poderemos cair nessa armadilha. Outro desafio refere-se ao Plano Nacional de Políticas para as Mulheres e sua implementação pós II CNPM. Caberá ao movimento monitorar de forma competente, o que tem sido, até agora, uma atividade restrita a pouquíssimas organizações. E mais, precisamos debater que feminismo teremos neste século que já começou. Afinal, nossa pauta e nossas práticas ainda são do século passado. Temos a tarefa de ampliar a pauta e o compromisso anti-racismo, anti-sexismo e antilesbofóbico; ou seja, trazer de volta a luta ideológica que fez com que tudo começasse.
Jurema Werneck, coordenadora da ONG Criola

Nosso desafio passa pelo fortalecimento do movimento feminista e seus ideais junto à sociedade, e pela capacidade de articulação com outros movimentos sociais que também se oponham às práticas sociais que discriminam e vulnerabilizam grupos ao negar as diversidades humanas (sexo, gênero, étnico-raciais, religiosas). É um período de crise da democracia e de fortalecimento de fundamentalismos na economia e na política brasileira. Vivemos a imposição autoritária da política econômica de superávit primário, a política de criminalização de movimentos sociais, a força do fundamentalismo religioso dentro do Congresso Nacional que inviabiliza hoje a aprovação de leis como da legalização do aborto e da criminalização da homofobia.
Kelly Kotlinski, diretora-executiva e assessora em Gênero da Associação Lésbica Feminista de Brasília Coturno de Vênus

O movimento feminista é desafiado a enfrentar várias questões, que exigem de nós o fortalecimento como sujeito político transformador. Entre tantas frentes de lutas, destaco o desafio de enfrentar o fundamentalismo religioso, que atenta contra o Estado Laico e contra a vida das mulheres ao tentar impedi-las de ter autonomia de decisão sobre seu corpo, de ter ou não ter filhos/as, enfim de decidir sobre a sua vida. Enfrentar essa ofensiva conservadora, sobretudo da Igreja Católica, exigirá de nós mobilização e fortalecimento como movimento social, ação direta, pressão e incidência política por uma nova cultura política para transformar o mundo e que este seja livre do sexismo, do racismo e do patriarcado.
Nelita Frank, integrante da coordenação do Núcleo de Mulheres de Roraima

A legalização do aborto é o tema que certamente pautará a ação feminista em 2008. A Igreja está cada vez mais empenhada na ofensiva pela supressão de diversos direitos sexuais e reprodutivos. É preciso reafirmar que a legalização do aborto representa o direito de escolha sobre o próprio destino, para uma vida com autonomia e igualdade. Além disso, a CUT-DF dará continuidade à divulgação da Lei Maria da Penha, consolidando sua atuação pelo fim da violência contra as mulheres. O eixo da Central será pela "Redução da jornada de trabalho sem redução de salário". Tal política tem impacto direto na vida das mulheres, pois somos nós as mais prejudicadas por jornadas excessivas de trabalho, em razão da "dupla jornada" decorrente da acumulação do trabalho doméstico.
Rejane Pitanga, presidenta da Central Única dos Trabalhadores (CUT-DF)

O principal desafio é avançar na organização das mulheres trabalhadoras e, mais do que nunca, entender e enfrentar o imperialismo que impõem sobre os povos a guerra, a pobreza, o aumento da fome e miséria. Associado a isso é preciso combater a cultura patriarcal e machista que coisifica tudo e torna os outros seres, principalmente as mulheres, propriedade privada. Temos de avançar na luta pelo reconhecimento e valorização do trabalho das mulheres e enfrentar o agronegócio, o monocultivo, os transgênicos, o latifúndio, o trabalho escravo, a destruição da natureza comandada pelo capital por meio das grandes transnacionais. Ao mesmo tempo, construir e vivenciar novas práticas fundamentadas em valores feministas e socialistas. Nossa missão é a libertação das mulheres, a construção do projeto de agricultura camponesa e a transformação da sociedade.
Justina Inês Cima, coordenadora nacional do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC)

   
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