Alzira Rufino
Escritora e editora do Boletim Eparrei e Revista Eparrei. É também presidenta da Casa de Cultura da Mulher Negra

Quem não ouviu o tambor virtual, panfletado nas vielas, nas favelas, nos morros, nas universidades, nos botequins, nos bares sem moda? O espaço virtual se propagou convocando todos e todas à luta, para derrubar as barreiras que tolhem o nosso povo partindo para a conquista da plena liberdade, igualdade e justiça social.

No dia 16 de novembro, Brasília ouviu a voz de todas e todos nós, mulheres e homens negros, jovens, quilombolas, artistas, jornalistas, religiosos, anônimos de várias classes sociais, desvinculados de tutelas partidárias, do classicismo e tantas outras coisas menores que a nossa causa.

Movimentos em dois momentos, com várias faces, mas sempre em continuidade da grande luta de libertação, cujo líder e referência básica é Zumbi dos Palmares. Essa luta é propriedade nossa, de todo um povo no durante e no Pós-Zumbi +10.

Estivemos em Brasília mostrando que o Estado brasileiro continua nos legando condições de vida cruéis e desumanas, incompatíveis com a cidadania quanto ao acesso à educação, à saúde, à moradia, ao trabalho e ao lazer.

Estivemos na Marcha rebeladas contra a intolerância religiosa e a violência racial, traduzida na morte precoce que rouba nossos filhos, nossas filhas, irmãos e irmãs, na infância, na adolescência e na juventude, impedindo que tenham o direito de chegar à vida adulta e para deixar um legado aos que virão, construindo uma nova identidade de resistência para o futuro.

Estar na capital federal no dia 16 de novembro significou chamar a atenção para a conjuntura atual de exclusão do povo negro. Hoje, do total de 53 milhões de pobres no Brasil, 68% são de negros e negras. O ponto de partida para a Marcha, coloca-se ainda hoje no Pós-Zumbi +10, acima de conjunturas partidárias e governos.

O combate ao racismo e às injustiças passa pela regulamentação do Estatuto da Igualdade Racial como um instrumento legal, incluindo-se o Fundo Nacional da Promoção da Igualdade Racial, porque o Estatuto sem definição de recursos, sem previsão orçamentária, não tem realidade política.

Continuamos em Marcha exigindo cotas para afrodescendentes nas universidades públicas, titulação e regularização fundiária das terras das comunidades quilombolas, recursos para o financiamento e a execução das políticas públicas de promoção da igualdade racial, democratização dos meios de comunicação, políticas que assegurem os direitos das mulheres negras, da juventude, a defesa das religiões de matriz africana contra a intolerância religiosa e a valorização das diversas expressões e manifestações culturais do povo negro brasileiro.

O durante e o Pós Marcha +10 agregam artistas que não desejam que seu trabalho esteja reduzido a papéis de escravos e trabalhadores domésticos sem conflito, vítimas violentadas dos estupros sem história, a serviço de seus patrões brancos; jornalistas sem liberdade de noticiar os eventos da população negra que são ignorados nas redações dos grandes jornais e revistas; publicitários que são obrigados a criar suas campanhas isolando a participação de afrodescendentes.

Estivemos no dia 16 de novembro de 2005 por nossa conta, não para dividir, e sim com a liberdade do refletir e agir porque não aceitamos mais cangalha em nosso corpo, turvando a nossa visão. Desobediência civil ao jingle de que é dando que recebemos, não como perdidos na noite, cobaias do processo, importando o saber griô do ontem e hoje dos nossos antepassados.

Estivemos por nossa conta porque não acreditamos no grande marketing submetendo o nosso povo ao franchising da senzala; nem essa economia que vai muito bem, mas a matemática usada é 1 + 1 negro = zero.

Foi e será uma caminhada unificada dos que lutam por cidadania e liberdade. Estaremos por nossa conta para exigir igualdade de gênero e raça em tempo real.

   
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