A democracia é hoje um tema importante no âmbito internacional. Todas as questões relevantes da atualidade têm a democracia como referência para o debate em vários níveis. Nas últimas décadas, as ações do movimento feminista têm contribuído para a democratização da vida social e política.

Vivemos um momento histórico crucial para o aprofundamento dos debates sobre feminismo e democracia na América Latina e Caribe. De 9 a 12 de outubro deste ano, em Serra Negra, São Paulo, as mais de mil feministas presentes no 10º Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe irão debater o tema central: a Radicalização do Feminismo e a Radicalização da Democracia.

Para esquentar esse debate desde já, a Comissão Organizadora do 10º Encontro conversou com duas pensadoras feministas: a brasileira Maria Betânia Ávila, do SOS Corpo - Instituto Feminista para a Democracia, e a uruguaia Lilián Celiberti, do Cotidiano Mujer.

No contexto político atual da América Latina e Caribe, é pertinente a discussão sobre radicalização do feminismo e radicalização da democracia proposta pelo 10º Encontro?

Maria Betânia Ávila - Acho que neste contexto, tanto nacional como latino-americano, a questão da democracia é algo central. Esse conceito de democracia radical, de radicalização da democracia, é uma questão que precisamos discutir. Mas, em que sentido? Existem definições conceituais, teóricas e há alguns autores que trabalham com essa idéia de democracia radical. O que estamos buscando no feminismo não é exatamente uma concepção que não leve em conta outras concepções de democracia radical, mas sim uma formulação nova dessa idéia de democracia radical.

Há dois pontos de vista. Do ponto de vista da conjuntura, essa idéia de democracia radical tem o sentido político de evidenciar uma certa insatisfação com as formas de democracia existentes. Do ponto de vista pragmático, radicalizar a democracia é torná-la mais profunda, avançar nela. Do ponto de vista teórico, discutir a democracia radical, conceituar e aprofundar o que é essa democracia radical fazem parte da nossa luta. Nós vamos ter que ir construindo essa própria noção do que seria essa democracia radical como parte do avanço da luta feminista. O que quero dizer com isso? Penso que temos algumas questões que já indicam isso. Primeiro: a idéia de uma democracia que não seja apenas uma democracia do sistema político, mas uma democracia como algo próprio da vida social, a democratização de todas as esferas da vida social. Do ponto de vista da democracia política, nós não pensamos em democracia como formalidade, como procedimento; o que estamos propondo é a democratização das relações sociais, das relações de poder.

Lilián Celiberti - Nós, feministas de cada um dos países, somos "atoras" políticas. Há trinta anos estamos impulsionando a criação de novos desafios comuns e democráticos, por uma cultura antiviolenta, anti-racista, antifundamentalista, temos gerado novas agendas, novos direitos, mas também novas identidades coletivas.

É claro que a democracia na América Latina é um conceito complexo, porque de alguma maneira são democracias eleitorais que não refletem justamente essa riqueza da vida social, das agendas, da ascensão de direitos formais. Isso está evidenciando uma dicotomia entre o mundo social e o mundo político - político entendido como político-partidário, como político de representação.

Parece-me que somos um movimento que não apenas traz demandas, mas traz também propostas de vida em comum na sociedade. Porque o campo desse debate não está dado apenas com os governos, mas está dado também nas relações dos múltiplos atores sociais, das nossas múltiplas identidades, dos diferentes movimentos, que se expressam nesse mundo do social.

A radicalização da democracia não é um caminho que tem uma única via, e tampouco é a radicalização feminista. É preciso saber como esse debate sobre democracia modifica a nossa agenda e fortalece nossa ação política. Trata-se de nossa capacidade de abrir o movimento a todas as mulheres, às diferentes opiniões. Os mesmos temas que estão colocados no debate democrático da nossa sociedade também estão colocados nos debates de cada um dos movimentos e dos atores sociais.

Na sua opinião, quais são os principais desafios que estão colocados para o feminismo para aprofundar seu pensamento político no campo da democracia?

Maria Betânia Ávila - Essa conjuntura que estamos vivendo no campo nacional remete para o feminismo uma coisa muito importante. O feminismo sempre foi um dos movimentos sociais que fizeram uma das críticas mais profundas à forma de construção de poder político, de exercício de poder político, à forma como se estruturam as instituições, que são as instituições que estão aptas ao exercício do poder político. Construir uma análise crítica sobre a relação política no âmbito do Estado, do poder público, é um desafio importantíssimo para o feminismo.O feminismo sempre questionou e se rebelou contra esse patrimônio político masculino e suas formas hierárquicas violentas. Cada dia fica mais claro que essas formas de relação política constroem poderes políticos extremamente perversos.

Lilián Celiberti - Há muitos desafios. Um é a possibilidade de gerar uma agenda própria, dos movimentos sociais. O segundo desafio é avançar na busca de novas conceituações, assim como articulamos o debate da democracia ao debate sobre o aborto, não como um tema de saúde, mas como um debate político, pela liberdade das pessoas no mundo. Parece que aí voltamos à primeira pergunta: a radicalização da democracia significa colocar também o tema da liberdade de opção como um tema paradigmático da concepção de sociedade. O terceiro desafio é ampliar o movimento, ampliar as lideranças, respeitar profundamente nossas múltiplas identidades, construir uma cultura de debate que coloque no centro das estratégias a pluralidade política das feministas, sem ter medo do debate político entre as feministas e dentro do movimento. Quando digo debate político quero dizer confrontar diferentes estratégias, diferentes opções.

Qual é o significado de o feminismo encontrar neste momento - no 10º Encontro - espaço, tempo e energia para refletir sobre o próprio feminismo?

Maria Betânia Ávila - Pensar democracia e política é pensar o próprio feminismo. Quando eu falo da questão do poder falo tanto da crítica que o feminismo faz à forma como se estruturam as relações de poder político, como também da maneira como o feminismo devolve essa crítica e reflexão.

Há uma fragmentação dentro do próprio feminismo, das suas questões. Estamos precisando urgentemente de uma teorização que nos faça avançar na nossa análise social. Porque essa análise social é uma dimensão absurdamente estratégica das nossas definições políticas - e isso na América Latina faz uma falta enorme. Acho que nossa ação política está muito fragmentada. Não temos avançado no nosso pensamento teórico de forma a dar conta de superar essa fragmentação. Não estou com isso querendo dizer que vamos encontrar um modelo, mas precisamos de um aprofundamento. Como percebemos hoje a questão do patriarcado na América Latina? Quais são as correntes? Quais são as pessoas que defendem essa concepção teórica de um poder patriarcal? Porque isso tem tudo a ver com as estratégias que possamos vir a adotar. Estrategicamente, o que pensamos?

Lilián Celiberti - Creio que é importante, mas também tenho alguns medos, porque o debate político, a possibilidade de se ver, de refletir, supõe as outras condições anteriores, supõe a ruptura de falsas dicotomias entre velhas e jovens, entre lésbicas e heteros. Preocupa-me como avançar, como colocar todos esses temas propostos nos Diálogos Complexos segundo olhares diferentes. E vamos ver como resulta, mutuamente, dentro de nossas múltiplas identidades, vamos ver como conseguir nesse Encontro um debate político fecundo. Tenho a sensação de que, muitas vezes, em alguns lugares onde não estamos, nos olhamos com desconfiança. Se não estamos organizando, se não estamos participando, se não somos protagonistas. Gostaria que desse Encontro saíssemos com a idéia de que estamos no Encontro como apenas um pedacinho de milhões de energias feministas que andam circulando pelo mundo. Essa idéia de parcialidade me parece que é central para construir um movimento forte e diverso, capaz de reconhecer-se em muitíssimas vozes, embora não se vejam as caras.

O 10º Encontro terá dois tipos de atividades:

  1. Atividades planejadas e organizadas pela Comissão Organizadora em interlocução com os Comitês Consultivos Nacional e do Cone Sul. Está previsto na abertura do Encontro um painel sobre "Feminismo e Democracia", outro painel sobre "Feminismo: o presente e o futuro" e mais quatro sessões intituladas "Diálogos Complexos", que debaterão temas como: feminismo e racismo, etnocentrismo, lesbianidade e juventude.
  2. Atividades propostas pelas participantes: oficinas, reuniões, atividades culturais etc. O período das 16 às 19h será reservado para estas propostas.
   
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