No dia 14 de dezembro, foi lançada, no Rio de Janeiro, a campanha Diálogos contra o Racismo. Ainda em dezembro (26), começaram a ser veiculadas as peças publicitárias com foco no despertar de uma consciência pessoal do racismo e sua internalização.

Pesquisas revelaram que a população brasileira como um todo reconhece a existência do racismo em sua estrutura, no entanto pouc@s brasileir@s admitem reproduzir esses comportamentos. Para isso, a iniciativa utiliza uma abordagem de situações do cotidiano e de valores culturais nos quais se manifestam a discriminação, provocando as pessoas a se confrontarem com o racismo oculto em suas atitudes e crenças, a fim de promover a reflexão e mudança de atitude.

Estrutura

A Campanha foi construída ao redor do mote: "Onde Você Guarda o Seu Racismo?". 300 depoimentos, em diferentes espaços públicos do Rio de Janeiro, foram gravados em resposta a essa pergunta.

O material transformado em vts para a televisão e spots para rádio deve ser veiculado pela mídia brasileira de forma gratuita. Outdoors, busdoors,cartazes e folders foram confeccionados para a fase inicial da campanha.

Foi elaborado pela equipe de coordenação da campanha um Manual com dados e argumentos anti-racistas, além de um sítio na internet no qual deve estar disponível o material da campanha www.dialogoscontraoracismo.org.br. A página conta ainda com espaços interativos nos quais os usuários podem comentar e dar sugestões.

Dados que refletem a realidade

A população negra no Brasil é de 76 milhões (45% da população), apesar disso, o racismo está presente no cotidiano dess@s brasileir@s. Historicamente discriminad@s, @s negr@s ainda vivem as piores condições de acesso aos direitos humanos básicos. São el@s, ainda, as maiores vítimas da violação dos direitos.

De acordo com estudo da pesquisadora Maria Inês Barbosa, da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP), a projeção da expectativa de vida d@s brasileir@s feita pelo IBGE para 1995, ano em que foi realizada a pesquisa, era de 64 anos para os homens e 70 anos para as mulheres. No entanto, na cidade de São Paulo, @s negr@s não chegam a atingir essa média, 63% dos homens negros morrem antes de completar 50 anos. As mulheres negras têm sua expectativa proporcional à do homem branco. Isto quer dizer que 40% morrem antes dos 50 anos.

Muito além da campanha

Os Diálogos contra o Racismo nasceram da necessidade de mobilizar organizações da sociedade civil, que até então não conferiam a necessária prioridade ao enfrentamento do racismo, para que se engajassem a esta luta.

Ainda em 2001, por iniciativa da Articulação de Mulheres Brasileiras e do Observatório da Cidadania, o convite foi feito a várias entidades atuantes no campo dos Direitos Humanos que aceitaram o desafio de iniciar um diálogo com organizações do movimento negro, a fim de se apropriarem da temática e se engajarem à luta. Estávamos em pleno processo preparatório da III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, quando se abriu, um fórum de discussão onde as várias posições, as tensões e contradições puderam ser expostas e debatidas, de maneira a alicerçar as bases de confiança política entre interlocutores(as) . Foram realizados, no Rio de Janeiro entre 2001 e 2004, quatro Diálogos com a presença de cerca de 40 entidades.

Desde o início dos Diálogos contra o Racismo, veio ganhando força a idéia de implementar uma campanha nacional pela igualdade racial. Afinal, como tem afirmado a feminista e ativista do movimento negro Sueli Carneiro, nos Estados Unidos, assim como na África do Sul, os avanços mais importantes na luta contra o racismo, guardam relação direta com a mobilização de vários segmentos da sociedade contra a discriminação.

O propósito era, e continua sendo, romper com a idéia de que o racismo é problema exclusivo do movimento negro: tod@ cidadã/o, toda organização, todo movimento, que se paute pela busca da igualdade e pelo respeito à diversidade deve responsabilizar-se pela eliminação do racismo.

Desde 2003, algumas organizações vêm trabalhando na preparação da campanha e na produção dos materiais. Entre elas destacam-se: Ibase, Observatório da Cidadania, Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Cfemea, Comunidade Bahai, Instituto Patricia Galvão, Articulação Nacional de ONGs de Mulheres Negras, Criola, Geledés, Action Aid, Redeh, Cesec/Ucam, Rede Dawn e Abong.

O feminismo e a luta anti-racista

Como afirma Schuma Schumaher (REDEH), no final do século XIX, "as primeiras organizações de mulheres criadas no Brasil tinham na causa abolicionista seu tema principal de luta"1. Já no início do século XX, foi a reivindicação do movimento das sufragistas que mobilizou as mulheres em torno do direito ao voto. A conquista, obtida em em 1932, entretanto, não esteve ao alcance da grande maioria das mulheres, notadamente as negras, porque a condição de eleitor/a restringia-se à população alfabetizada, e o acesso à educação estava obstaculizado por discriminações de gênero e raça.

Num salto de 1932 para 2004, constata-se que, a exemplo do que aconteceu com o voto feminino, inúmeras conquistas dos movimentos de mulheres e feminista ainda hoje continuam sendo apropriadas de maneira desigual por brancas e não-brancas. Dado que o racismo é um dos elementos que estrutura a desigualdade entre as mulheres brasileiras, o feminismo - seja como teoria crítica, seja como prática política - precisa incorporar a dimensão racial ao seu pensamento e a sua ação para ser coerente e efetivo na sua luta por justiça e equidade de gênero. As feministas negras já deram passos decisivos neste sentido. Por isto, a expectativa é que estes processos de diálogos contra o racismo, bem como as parcerias e alianças que dele decorrem, sejam auto-transformadoras e façam emergir novas possibilidades de construir a igualdade.

(1) SCHUMAHER, Schuma. Primeira onda feminista. www.mulher500.org.br

   
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