Em 10 de dezembro de 1948 a assembleia geral das Nações Unidas proclamava a Declaração universal dos Direitos Humanos, que estabelece a proteção dos direitos humanos como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações.  Desde 1950, celebramos anualmente em 10 de dezembro o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Hoje, no contexto brasileiro de desmonte das políticas de direitos humanos e de criminalização dos movimentos sociais, celebramos a resistência, a luta de ativistas contra o esfacelamento dos direitos conquistados a muito custo em 30 anos de redemocratização. Pessoas que defendem direitos humanos, especialmente aquelas submetidas à discriminação racial, de gênero e de classe, desafiam as estruturas de poder de nossa sociedade, por isso enfrentam condições agravantes e de sério risco. Se movimentos sociais e ativistas de modo geral são submetidos a violências diversas por questionarem a ordem de exploração e discriminação dominante, as mulheres enfrentam ainda o sistema patriarcal impregnado nas instituições e nas relações sociais.

 

As defensoras desafiam as estruturas dominantes por sua própria existência como sujeitos políticos que ousam ocupar a esfera pública. Nossas ações políticas enquanto mulheres, negras, indígenas, lésbicas, bissexuais, trans e travestis subvertem a ordem social patriarcal, racista, heteronormativa e exploradora desde o momento em que ocupamos espaços de poder. Portanto, não só os nossos movimentos sociais e as nossas ativistas são criminalizadas, mas também nossos corpos racializados e agredidos. O que enfrentamos hoje no Brasil com o aumento das forças conservadoras contra as lutas emancipatórias feministas e anti-racistas é uma ameaça ao lugar que nós mulheres ocupamos enquanto sujeitos políticos. Querem garantir de toda forma que vamos permanecer ou retornar aos lugares tradicionais de subordinação. A reação às lutas das mulheres é violenta, ataca diretamente nossas vidas e nos crminaliza, à serviço dos interesses dos grupos anti-direitos (poder econômico associado ao fundamentalismo religioso, por exemplo). Para manter privilégios, desqualificam nossas lutas por liberdade e autodeterminação reprodutiva, contra a violência e o autoritarismo. 

 

Diante de tais ameaças, nós mulheres, em toda a nossa diversidade e afetadas por desigualdades entre nós, nos afirmamos como sujeitos políticos, e construímos nossas estratégias de proteção e defesa de ativistas para nos fortalecermos coletivamente, considerando as diferentes condições de vulnerabilidade dentro das quais trabalhamos para a transformação social e a interdependência de nossas lutas. Em decorrência disso, o CFEMEA assume como um objetivo fundamental de nossa resposta a essas ameaças e emergências, colocar a proteção de ativistas e mulheres defensoras de direitos humanos no âmbito da organização coletiva. Percebemos muito estrategicamente que, através do fortalecimento coletivo de todas e de cada uma de nós, os espaços de nossa organização e mobilização política (grupos, coletivos, movimentos e organizações) se fortalecem. No coletivo cada uma se fortalece para encarar a imensa fragilidade que o contexto político nos impõe.

 

As implicações do ativismo das mulheres na vida pessoal de cada uma nos exigem proteção e suporte dentro de nossos próprios movimentos. Compreendemos que o direito de cuidar de nós mesmas e de cuidar umas das outras é um passo importante para a proteção de ativistas e defensoras de direitos humanos, bem como para o fortalecimento de nossa rede e de nossas lutas. Fomentamos espaços de articulação política, proteção, segurança e cuidado entre ativistas concebidos a partir de uma compreensão multidimensional do bem-estar. Em todos os momentos de nossa luta política, o ativismo exige muito de cada pessoa: dedicação, tempo, conhecimento, disposição, paciência e, no caso das mulheres, tripla jornada de trabalho.                 

 

Neste sentido, as metodologias de autocuidado e cuidado entre ativistas que o CFEMEA vem desenvolvendo desde 2015 são estratégias de promoção da sustentabilidade do ativismo feminista, de apoio e proteção às mulheres defensoras de direitos humanos que impulsionam as transformações sociais e a radicalização da democracia brasileira. A noção de cuidado no movimento feminista traz à tona o potencial transformador de um dos conceitos fundadores do feminismo: o pessoal é político - que procuramos praticar e reafirmar coletivamente nos nossos espaços de construção e articulação política. Fortalecemos o nosso núcleo de resistência através da integração de conceitos de cuidado e proteção coletiva em processos de formação política, auto-organização e mobilização social. Ao fazê-lo, reconhecemos a importância do cuidado individual e autônomo associado ao cuidado coletivo para nos mantermos ativas e fortes na luta por direitos, autodeterminação e liberdade para as mulheres.

 

Através do cuidado entre nós, do investimento na sustentabilidade e na proteção dos nossos movimentos, também seremos capazes de mitigar os impactos das violências nas nossas organizações, nos nossos corpos e em nossas vidas.

 

Conheça experiências de autocuidado e cuidado entre ativistas:

 

 

   
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