MarielleFranco

Ilustração: Neliane Maria / Rabiscos Feministas

 

“Mataram nossa heroína”. Era o dizer de um cartaz empunhado no meio da multidão, nas escadarias da ALERJ, na manhã seguinte ao assassinato da Vereadora do PSOL, Marielle Franco. Morta a tiros, de forma brutal, sem o menor pudor, no mês em que celebramos a luta das mulheres por igualdade e às vésperas do dia Internacional Contra a Discriminação Racial, 21 de março. Uma mulher negra, da periferia do Rio, lésbica, que lutava contra essas e outras formas de opressão, uma das poucas que conseguiram ocupar um espaço de poder na história do Brasil, é assassinada. No Brasil, o racismo é uma das dimensões mais cruéis que estruturam as desigualdades sociais e, na intersecção com a segregação de classe, promove e aprofunda uma série de violências e desumanidades.


No país onde comunidades inteiras são expostas a regimes de cerceamento de liberdades e violência extrema, em condições de miséria e pobreza, de insegurança pública e de baixa representatividade das lideranças de comunidades periféricas, é justo que uma parlamentar envolvida na busca de soluções como questão política e de vida se torne uma referência emblemática, catalizadora do desespero, mas também da esperança dessas populações.
No país onde as mulheres são sub-representadas nos espaços de poder e decisão, onde da direita à esquerda encontram inúmeras barreiras nos partidos para promover suas candidaturas e plataformas políticas, enfrentando o machismo, o preconceito e a desvalorização de suas pautas no ativismo partidário, é certo que um mandato parlamentar como o exercido por Marielle, em sua breve trajetória na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, deixará um vazio na história de nossa democracia.

 

Marielle Franco com toda a convicção do lugar de onde estava posicionada, mulher negra e favelada, “mulher eleita”, como bradou ela mesma com orgulho e altivez em sessão solene da Câmara do Rio de Janeiro no dia 8 de Março, desenhou um mandato popular coletivo, e abraçou com vigor e determinação todas as pautas relegadas à invisibilidade política: a representação política das mulheres, as plataformas feministas, o enfrentamento ao racismo, a visibilidade lésbica e o respeito à diversidade das famílias, o feminismo trans, a descriminalização do aborto, a violência do Estado contra moradoras e moradores das favelas.

 

Questões incansavelmente denunciadas também nos relatórios das Nações Unidas, mas que muito pouco ou quase nunca mobilizam decisões reais de acolhimento, enfrentamento ou resolução pela política partidária, e menos ainda pelo Estado Brasileiro – este, muitas vezes o violador de direitos da população que deveria ser cuidada por ele.


Marielle Franco vocalizou as demandas de feministas e jovens mulheres negras, e por esta relação estreita de pertencimento ao movimento de mulheres no Rio de Janeiro e no Brasil, tornou-se, ainda viva, ícone dessas lutas. Ela era a assertividade feminista questionadora do sistema político excludente e opressor das mulheres, das mulheres negras e periféricas, que são excluídas do pleito eleitoral, avesso ao nosso vocabulário, às nossas experiências e lutas. Ela mesma empreendia uma luta interna em seu próprio partido por mais visibilidade e valorização de candidaturas de mulheres, e se fez emblema, corpo e possibilidade de realização de tantas sujeitas e sujeitos políticos, de inúmeros grupos e coletivos, de comunidades inteiras, de toda uma cidade e um país.

 

Como emblema, viva de significados, orgânica em nossas ruas e redes sociais, como uma ponte, Marielle expandia através de si mesma a articulação reflexiva e engajada contra as determinações e desigualdades estruturais de nosso país, como raça e classe, e suas interfaces com o sexismo e a desigualdade de gênero. Marielle é a expressão de um feminismo urgente de respostas e realizações, de interseccionalidades pulsantes em seu corpo e presentes na sua história.


Sua execução pode ser entendida como um “recado” que escancara a brutalidade do Estado brasileiro, a impunidade dos violadores que cotidianamente exterminam nossa população jovem, negra e periférica e o fosso patriarcal e racista do nosso fazer político brasileiro. Em forma de bala, eles tentam nos calar, nos coagir, nos amedrontar e dizer que não podemos ocupar o poder e lutar contra todas as formas de opressão. Marielle deixa como legado a centralidade do enfrentamento ao racismo na agenda pública Brasileira, como nunca vista na história de nossa jovem democracia, e também o desvelamento da dura batalha travada pelas mulheres, especialmente as mulheres negras, no acesso à política e ao poder. Uma batalha cruel que, como o mundo assistiu, pode acabar com as suas próprias vidas.


Este episódio lastimável de nossa história deixa bem posicionada a denúncia sobre as condições de vida das mulheres negras e periféricas, a violência que atinge os corpos de negras e negros que convivem cotidianamente com a truculência policial nas favelas e a crítica à intervenção federal no Rio de Janeiro. O assassinato de Marielle está movendo estruturas subjetivas e de poder. As mulheres rebeladas ameaçam a impunidade daqueles que pensaram calar a sua voz e que, ao revés, amplificaram-na.


Marielle Presente! Hoje e sempre!

   
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